Midian

Midian era uma das duas únicas crianças negras de sua turma no colégio. Ela conta que, nessa época, seus colegas de turma advertiam uns aos outros para que não encostassem nela, do contrário poderiam se sujar com sua pela negra. Quando criança, nos intervalos de aula, as meninas se reuniam para brincar de boneca. Ao se aproximar do grupo para brincar, ela era expulsa da brincadeira com tapas no rosto dados pelas crianças que não a queriam por perto. Não foi uma ou duas vezes, foram diversas vezes. Aos 15 anos, quando passou a ter vários problemas dentro de sua casa, Midian começou a engordar. Desde então, ela não conseguiu mais recuperar seu peso anterior. Isso começou a ser um problema, tanto dentro de casa quanto fora. 
Ela tentou, por muito tempo, enquadrar-se ao padrão de beleza que a sociedade nos impõe, fazendo dietas, tentando alisar o cabelo, vestindo-se como a maioria. Suas amigas sempre se encaixaram no padrão de beleza e ela, por ser diferente, começou a se excluir muito porque se sentia rejeitada pelas outras pessoas. Midian foi e ainda é muito discriminada dentro de sua própria casa.  “As pessoas dentro da minha casa não querem nem que eu me aceite gorda. Elas querem que eu me ache um monstro e eu não me acho um monstro. Eu gosto dos meus traços, eu me acho bonita.” 
Há dois anos e meio, ela parou de tentar ser uma pessoa que não era e começou todo o seu processo de empoderamento. Mesmo com tantas marcas negativas de discriminação em sua vida, ela, que é estudante de recursos humanos, afirma que por ser negra e gorda, tem que ser a melhor no que fizer. E garante que vai ser a melhor profissional de recursos humanos do mundo. 
Midian, deixa eu te falar uma coisa: você é uma guerreira. E sua luta também é pelas Marias e Dandaras, pelas que se foram e pelas tantas que virão. É pelas tantas anônimas guerreiras brasileiras. É pelas 822 mil mulheres negras trabalhando como empregada doméstica frente aos poucos mais de 11,2% de negras com ensino superior. Essa luta também é pelas meninas pretas mortas pelo abandono do Estado em mesas do SUS após uma tentativa de aborto clandestino. E os dados dizem: mulheres negras são 65,9% das mulheres submetidas a alguma violência obstétrica. Você faz jus à todas as mulheres negras que atravessam a cidade, “lotação-metrô-busão-trem-carona” para chegar em suas faculdades, cursos extras, escolas e ainda assim, receber 35% do que recebe um homem branco. Por isso, não deixe nunca de lutar! Ser mulher negra, gorda e feliz já é um ato revolucionário que pode mudar o mundo! Avante!


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