Julia

Ao nascer, Julia foi diagnosticada com uma doença de pele muito séria que a fez tomar corticóides e ser internada durante sua infância. Ser gorda sempre foi uma questão na vida dela, tanto pelo uso dos corticóides, que a engordavam, como por sua genética. Já aos oito anos, começou a freqüentar a academia. Ela se lembra de ser a única criança submetida àquele ambiente de emagrecimento pela família. Aos 13, com a ajuda de remédios, Julia perdeu dez quilos. Foi quando ela comprou roupas novas para uma festa com seus amigos. Ela estava muito feliz por ter conseguido beijar o garoto L. na festa, as pessoas estavam comentando e ela se sentiu capaz de ser desejada por alguém. Nos próximos dias, ele não a procurou mais. Ela, então, ficou sabendo que o garoto L. tinha vergonha de ficar com ela, já que Julia era gorda. Eu ia quase me esquecendo de dizer que ele também era gordo. O garoto L. é, na verdade, a representação do homem machista e da gordofobia que massacra, pouco a pouco, pedaços dos corpos de mulheres oprimidas na nossa sociedade podre. O homem gordo pode não ser visto pelo físico dele, porém a mulher gorda vai ser sempre julgada por sua aparência. E essa é uma verdade muito nojenta. Ainda bem que ainda existe gente querendo romper padrões, desconstruindo-se para transformar o mundo num lugar melhor. Gente como a Julia, mulher, uma super mulher. Quando se é gorda, as pessoas te discriminam tanto, que você começa a achar que não é capaz de nada, que não é uma pessoa legal, que não pode nem ter amigos, que você vai ser sempre uma pessoa desagradável, que esteticamente deixa o ambiente feio. É assustador, mas isso acontece e acontecia com a Julia. Agora deixa eu te falar uma coisa: a Julia é capaz de muito. Já na faculdade, ela descobriu um novo mundo. Nele, as mulheres exibem seus cabelos cacheados, envolvem-se sexualmente com outras mulheres, raspam os cabelos, assumem seus corpos e suas cores. Mesmo com as dificuldades sofridas no início do processo de empoderamento, Julia começou a enxergar possível ser uma mulher gorda e bonita. Ela passou a se desconstruir e a se aceitar. Hoje, a Julia está aqui, de corpo e alma, nus, dando a cara à tapa pra dizer que isso tem que acabar. E que mulheres gordas como ela precisam ser retratadas, pelas mídias ou pela arte, o mínimo que seja, mulheres gordas precisam dessa retratação para mostrar ao mundo que elas existem. E que são lindas. Se não há retratação disso de alguma forma, ninguém vai se questionar, ninguém nunca vai achar beleza numa mulher fora do padrão. E isso não é uma questão de gosto, é uma questão de preconceito. Você precisa se questionar se consegue enxergar beleza nas dobras da barriga dessa mulher, no braço gordo dessa mulher. E, acima de tudo, amá-la, como todo ser humano deveria ser.
“O meu recado vai além daquele clichê de se ame e você é linda, porque é muito difícil a gente se olhar pelada no espelho depois do banho e falar ‘nossa, eu sou linda!’. Não é fácil e não é assim que acontece. Mas você precisa acreditar que, de alguma forma, você é linda. Mesmo que você não enxergue isso olhando pra sua barriga, olhando pra sua perna cheia de celulite, olhando pra sua bunda flácida, olhando pro seu peito imenso. Você é linda de alguma forma e alguém também te acha linda a ponto de falar “eu quero ficar com você”. Porque quando uma pessoa fala que quer ficar com você, ela está incluindo tudo o que tem em você no pacote. Por isso, não fique tão contra si assim. Tá tudo bem em ser gorda, tá tudo bem...”

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Bibliotecária cria livraria especializada em autoras negras